Porto da Minha Infância (2002)
M/12
62 min
Realização: · Manoel de Oliveira
Argumento: · Manoel de Oliveira
Anotação: · Júlia Buisel
Argumento: · Manoel de Oliveira
Assistente de Realização: · José Maria Vaz da Silva
Diálogos: · Manoel de Oliveira
Direcção de Fotografia: · Emmanuel Machuel
Direcção de Montagem: · Valérie Loiseleux
Direcção de Som: · Philippe Morel
Música: · Emanuel Nunes · Maria Isabel de Oliveira [Cantora]
Outros: · António Costa [Colaboração Especial]
Produção: · Paulo Branco
Realização: · Manoel de Oliveira
Voz Off: · Manoel de Oliveira
O Porto da infância, é ainda o Porto de antes do nascimento: uma cidade carregada de história, uma cidade de artistas e pensadores. E como que por um movimento em espiral, o filme desenvolve-se desde as ruínas da casa natal, à cidade do Porto, a toda a sociedade onde se trava a guerra dos sexos, na Europa. O último plano do farol que se abre sobre o infinito do mar e do mundo é a réplica, ou a rima se se quiser, a cores, do primeiro plano do primeiro filme do jovem Oliveira, setenta anos mais cedo... o Porto é também a cidade que viu nascer, depois de 1896, o cinema em Portugal...
Porto da minha infância é o filme de uma procura: fragmentos de lembranças, pegadas, testemunhos, marcas, bandas da actualidade, letras de canções, fotografias. Imagens de identificação por vezes incerta: estes dois homens que olham para a objectiva da câmara serão realmente os poetas Fernando Pessoa e José Régio? E esta mancha cinzenta? Essa sobre a qual a mão do realizador desenhou uma cabana, um pavilhão de jardim, será realmente a garagem onde o ele revelou o negativo do seu primeiro filme? Fumée de fumée, tout est fumée. A vida e a memória esfumaram-se. A voz da memória fala de uma garagem mas nós nunca vemos mais do que uma sombra, um fantasma. O passado é uma palavra em que se deve acreditar.
A casa natal desapareceu, a árvore da forca desapareceu... e as confeitarias, e o Palácio de Cristal, e a prima Guilhermina, o primeiro amor...
Por momentos, o filme da memória é tomado pela vertigem. Do camarote dos seus pais, Manoel, adolescente, assiste à opereta Miss Diable. O Manoel que vemos é, com efeito, o seu neto encarregado de o incarnar. Este observa em cena o Manoel que ele será oitenta anos mais tarde, o Manoel que ele é agora detentor do papel de um actor dos anos vinte, Estevão Amarante, que interpreta por sua vez o papel de um ladrão, que rouba o coração de uma mulher...
[Jacques Parsi, Agosto de 2001]
O documentário começa com um percurso pelas ruas do Porto antigo, numa viagem de carro, recordando o realizador Manoel de Oliveira um passeio que fez à noite, a seu pedido, teria 9/10 anos, regressava com a mãe a casa, depois de uma ida ao teatro. Da Batalha, descendo por 31 de Janeiro, Mousinho da Silveira, a Marginal até ao Cais da Pedra, subindo D. Pedro V...
O realizador recorda a cidade de então, através de fotografias e gravuras (de casas, lugares, públicos ou familiares - por ex., a pastelaria Oliveira onde ele sonhava ficar esquecido e sozinho para depois da hora do fecho comer todos os bolos que quisesse; o Palácio de Cristal e as suas exposições, de rosas na Primavera, ou de automóveis no Outono, as posturas de taxis, os trens de aluguer, as motas com side-car de aluguer, os eléctricos - etc.; lugares que desapareceram ou se transformaram), contrapondo depois ao que aquelas casas, lugares, etc. são agora.
Ao mesmo tempo evoca encontros, afectos, conversas, passeios, pelas ruelas da Ribeira e o seu "décor" nocturno fantasmagórico, os lugares da moda, o café Majestic ou o Rialto, a praia do Molhe, na Foz, onde a cidade ia a banhos ou passeava pela brisa da noite.
Passa depois para o Porto "do novo milénio", das pontes (da Arrábida, de S. João, do Freixo), que, apesar de "novo" continua a ser o Porto da sua infância.
[Fonte: Madragoa Filmes]